O Largo dos Poetas e o Duelo de MCs
Quando Ouro Preto, no século XIX, declinava de seu apogeu dourado, os governantes começaram a pensar uma nova capital para Minas Gerais. Belo Horizonte seria a metrópole moderna que Minas não tinha, atendendo a aspirações burguesas de fim de século e colocando o estado num novo patamar de desenvolvimento. Construída sob os ideais positivistas de ordem e progresso, BH foi planejada para comportar 100.000 habitantes o que em 1970 já passava de 1 milhão. Para isso, a zona rural de Curral Del Rey foi desapropriada para a chegada dos novos moradores que deveriam ocupar e consumir aquele espaço.
O século seguinte chegou e com ele as obras de calçamento e arquitetura que buscavam apagar do mapa o velho Curral e seus primeiros habitantes. O referencial de modernidade naquele tempo era a Europa, os boulevards franceses e todo o requinte das ruas parisienses. Em 1929, quando o Viaduto de Santa Tereza foi construído com sua arquitetura arrojada e grandiosa buscava-se ligar o centro da cidade (Rua da Bahia, principalmente) aos bairros tradicionais da cidade como o Floresta e Santa Tereza que acabava de receber esse nome por causa da igreja localizada na Praça Duque de Caxias.
É sabido que a Rua da Bahia era um ponto dos escritores e intelectuais da cidade que se encontravam em seus bares e cafés para a troca de idéias e boemia. O Viaduto de Santa Tereza que agora era um símbolo da modernidade metropolitana catalisava para si essas aspirações artístico-literárias sendo pensado para ser o Largo dos Poetas. A tradição de subir seus arcos foi iniciada por escritores como Carlos Drummond de Andrade e Pedro Nava e até hoje há quem repita essa proeza, incluí-se aí o autor deste texto.
O tempo passou e o Viaduto acabou não sendo mais que uma via de passagem. Já na década de 1980, quando o capitalismo do terceiro mundo já sentia a chegada dos ideais neoliberais inúmeras cidades brasileiras começaram a passar pelo chamado processo de “revitalização”. No caso belo-horizontino, uma obra que veio a calhar foi a construção da estrutura inferior do Viaduto composta por um palco, pista e arquibancada para apresentações e exposições numa tentativa de retomar as aspirações artísticas do Viaduto. E não é que esse projeto fazia parte das obras de revitalização da Rua da Bahia?!
Foi preciso mais de 20 anos para que de fato o Largo se tornasse dos Poetas. E não estamos falando dos poetas da academia, de identificação pequeno-burguesa. Mas sim dos poetas da rua, que respiram a cidade e se apropriam dela de uma maneira diferente. Em 2007, o coletivo de jovens hip-hoppers Família de Rua começava a organizar um dos eventos culturais mais marcantes da atual Belo Horizonte. Nada mais, nada menos que o Duelo de MCs.
O evento acontecia inicialmente num canto da Praça da Estação próximo do Viaduto se consolidando exatamente no momento em que se apropriou da estrutura inferior disponível. Centenas de pessoas freqüentam o lugar nas noites de sexta-feira onde é possível perceber gente de diferente cor, raça, ideologia e credo. Mesmo alcançando tamanho sucesso e relevância na capital tem enfrentado dificuldades junto às autoridades para se manter de pé sem um esforço constante dos organizadores. O que é uma contradição já que finalmente o Viaduto encontrou sua maior aspiração: a poesia.
Texto por Gustavo “Gusmão” S. Marques
Leia também:
http://www.letras.ufmg.br/atelaeotexto/pesquisaluciocoelho.htm
http://bairrosdebelohorizonte.webnode.com.br/avenidas-e-ruas-de-bh-/


janeiro 23, 2012 às 12:30 pm
Belo relato Gusmão!